A conta da empresa não é teu caixa eletrônico: como separar pessoa física da jurídica

Vou direto ao ponto, porque esse é o erro mais comum que eu vejo em dono de pequena empresa: a conta da empresa não é caixa eletrônico pra ficar sacando e pagando conta de pessoa física.

Parece óbvio. Só que na prática quase ninguém respeita. O dono precisa pagar a escola do filho, passa o cartão da empresa. Vai abastecer o carro da família, débito na conta da empresa. Precisa de um dinheiro no fim de semana, saca do caixa. E no mês seguinte faz de novo.

Aí chega no fechamento e ele não sabe se a empresa deu lucro ou não. Como ele vai saber? Metade do que saiu da conta era despesa da vida dele, não do negócio. Os números da empresa viram uma ficção. E empresa que decide em cima de número errado decide errado.

Por que isso quebra a empresa por dentro

Quando tu mistura o teu bolso com o bolso da empresa, três coisas acontecem ao mesmo tempo, e as três são ruins.

Primeira: tu perde a clareza do lucro. O DRE fica contaminado. A despesa pessoal entra como se fosse custo do negócio e a margem aparece menor do que é. Ou o contrário, tu tira dinheiro sem lançar e a empresa parece mais lucrativa do que é. De um jeito ou de outro, tu está decidindo em cima de mentira.

Segunda: o caixa some sem explicação. Essa é clássica. O dono olha o extrato e fala “cadê o dinheiro que entrou?”. O dinheiro foi embora nas retiradas não controladas, naquele monte de saque e débito que ninguém anotou. O caixa da empresa virou a conta corrente da família.

Terceira: tu não sabe quanto a empresa realmente te paga. E esse é o ponto que mais importa. Sem separar, tu não sabe se o negócio sustenta a tua vida ou se tu é que está sustentando o negócio tirando do próprio bolso.

O pró-labore resolve isso

Pró-labore é o salário do dono. É quanto a empresa te paga por mês pelo trabalho que tu faz nela. Valor fixo, data certa, igual tu paga qualquer funcionário.

E esse é o pulo do gato: o dono tem que ser um funcionário da própria empresa. Todo mês, no dia certo, a empresa transfere o teu pró-labore pra tua conta pessoal. A partir dali, a tua vida é problema da tua conta pessoal. A escola do filho, o carro, o mercado, a viagem, tudo isso sai do teu pró-labore, não da conta da empresa.

Dá trabalho no começo? Dá. Vai doer definir um valor e se segurar nele? Vai. Mas é esse limite que te obriga a descobrir uma verdade que a maioria foge a vida inteira: será que a empresa consegue me pagar um pró-labore digno e ainda sobrar lucro?

Se a resposta for não, tu não tem um problema de hoje. Tu tem um problema estrutural que estava escondido debaixo dos saques.

Pró-labore não é lucro, e lucro não é pró-labore

Essa confusão também derruba empresário. São duas coisas diferentes.

Pró-labore é a tua remuneração pelo trabalho. É custo da empresa, entra na despesa fixa, e tu recebe mesmo que o mês tenha sido ruim, porque tu trabalhou.

Lucro é o que sobra depois de tudo pago, incluindo o teu pró-labore. O lucro é do sócio, do dono do capital. E distribuir lucro antes de saber se ele existe de verdade é uma das formas mais rápidas de furar o caixa.

Eu vejo muito dono distribuindo lucro que não existe. Ele saca porque tem saldo na conta, mas aquele saldo era de uma venda parcelada que ainda nem foi paga, era capital de giro, era dinheiro comprometido. Lembra: o dinheiro na conta não é do mês. Ter saldo não quer dizer ter lucro.

Como fazer na prática, sem complicar

Não precisa de nada sofisticado pra começar. Precisa de disciplina.

  1. Abre a separação na cabeça primeiro. Tu é duas pessoas: o funcionário Samuel e o sócio Samuel. A empresa paga o funcionário todo mês. O sócio só recebe quando sobra.

  2. Define um pró-labore. Um valor que a empresa aguenta hoje e que cobre a tua vida. Se não fecha, já é um diagnóstico: ou a empresa precisa lucrar mais, ou tu precisa enxugar o teu custo de vida por um tempo. Melhor saber agora.

  3. Paga esse valor numa data fixa. Transferência da conta da empresa pra tua conta pessoal. Depois disso, cartão pessoal pra vida pessoal.

  4. Para de passar despesa pessoal no cartão da empresa. Essa é a regra dura. Toda vez que tu passa, tu está apagando a fronteira de novo.

  5. Lucro só depois do DRE fechado. Primeiro tu confirma no número que existe lucro. Depois tu distribui. Nunca antes.

O que muda quando tu separa

Muda o jogo inteiro. Pela primeira vez tu enxerga a empresa limpa, sem o teu custo de vida embaralhando os números. Tu descobre a margem real, o lucro real, o caixa real.

E tu descobre uma coisa que liberta: a empresa não pode depender de tu enfiar a mão na conta dela toda semana. Ela tem que te pagar como ela paga qualquer um, e ainda sobrar. Esse é o sinal de uma empresa que funciona, e não de um emprego caro que tu criou pra ti mesmo.

Tu não precisa parar tudo pra organizar isso. Começa esse mês. Define o pró-labore, paga no dia certo, e vai ajustando. Progresso, depois ordem.

E se tu quer montar isso direito, com o pró-labore calibrado no tamanho que a tua empresa aguenta e o DRE separando de vez a tua vida do negócio, é esse tipo de clareza que eu construo com os empresários que eu acompanho no Mentorus Club. Quando quiser trocar uma ideia sobre os teus números, me chama.

Samuel M Basso

Mais de 16 anos de experiência na área de tecnologia da informação Samuel é um executivo de negócios de TI, empresário e professor. Tem uma grande experiência em análise e desenvolvimento de sistemas de gestão, marketing digital, consultor de micro e pequenas empresas.

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